Mas o que vi? Para a maioria nada de mais, suponho... mas para mim, foi como se algo que gosto muito estivesse a ser ameaçado de deixar de existir. Penso que é o caso.
O que vi foi um sinal de trânsito no meio de um caminho de jardim. E depois vi outro, e depois outro. Em ambos os sentidos, sinais de trânsito! Naquele caminho que, pessoalmente, considero a parte mais gostosa do percurso. Um pequeno jardim - nem assim se pode chamar, não fossem os muitos arbustos e as muitas árvores aí plantadas parecerem querer reclamar para si essa condição.
Este pequeno caminho por entre os arbustos e árvores sempre me deliciou. Há mais de uma década dei por mim a confessar a uma amiga que este torço era a parte mais relaxante do meu percurso, o lugar onde podia respirar fundo e sentir o aroma da natureza. Na altura tinha de esperar um autocarro na avenida Infante D. Henrique, junto à linha de comboio semi-utilizada (?), numa paragem praticamente inexistente, que consiste apenas no varão metálico com a placa identificativa. O espaço de chão que este precisa, é o espaço que o peão tem. A distância entre mim e o incessante passar do trânsito, praticamente não existe. Além disso, vinha do local de trabalho, com um ar circulante quase irrespirável. A lei da proibição do fumo no interior de edifícios ainda estava longe de entrar em vigor e todos fumavam na sala de espera, lugar sem janelas. A concentração do fumo dos tabacos era tanta, que até a visibilidade ficava perturbada. Após 8 horas desse martírio, sair para a rua sabia bem. Não fosse a paragem de autocarro situar-se praticamente na avenida e ter os veículos a passarem rentes a mim. Por isso, quando chegava ao meu destino, a "salvação" de todo este martírio, era me dada, como que um presente, por aquele pequeno pedaço de caminho relvado, ladeado de árvores e arbustos que, na Primavera, se enchem de muitas flores brancas, dando ao percurso aromas perfumados e alegria. Sempre me lembrava da lenda das amendoeiras, que o nosso rei mandou plantar para aplacar a nostalgia da sua raínha que vinha da neve... Para mim, o efeito era o mesmo..
Costumavam existir uns pilares de pedra a impedir os veículos de passar para esse caminho relvado. Noutro dia, ao passar, vi que tinham cortado uma das oliveiras e imediatamente pensei: "Ó não! Que não seja a minha Oliveira!". Sim, tenho uma oliveira preferida entre as tantas que ali estão. Uma cujo formato e sorte permite que me sente nela, como se de um assento se tratasse, a usufruir da sua sombra. Sombras... tão acolhedoras que são, debaixo deste imenso sol. As pessoas costumam se abrigar nelas ao invés de esperar o autocarro na escaldante paragem, com o sol a bater.
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É por isso e por outras que me custa presenciar certas coisas. A Carris faz paragens que são um atentado aos princípios práticos. De Inverno, deixam entrar água por todo o lado. Os assentos estão sempre encharcados. Uma vez procurei abrigo da chuva numa paragem e acabei mais molhada do que se tivesse continuado na rua, com o guarda-chuva. A água escorria pelas aberturas, salpicava como uma torneira aberta no assento metálico e fazia ricochete para as pessoas. Não se conseguia estar à beira, por causa da chuva e da água a escorrer do telheiro. Não dá para encontrar um maior abrigo no fundo, porque é aberto e a água consegue entrar melhor, escorrendo pelos veios do telheiro. Arre! Cheguei a casa com o casaco molhado em sítios onde não pensei ser possível ficar. Até os bolsos das calças estavam molhados pelo interior! E o casaco era comprido... No Verão, o alumínio e os vidros das paragens da Carris acumulam o calor que até queima uma pessoa ao contacto. Mas o pior das paragens da Carris, são os seus estúpidos cartazes publicitários. Colocados de modo a bloquear totalmente a visibilidade. Normalmente vêm-se as pessoas a esperar de pé, junto à berma, para conseguirem avistar o veículo a se aproximar. Não dá para esperar sentado porque se corre o risco do autocarro passar a grande velocidade sem parar.
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Agora resta-me aguardar para tentar perceber o que vai acontecer ao meu recanto de paz. Onde se fazem vias para passar carros, acaba sempre que se destrói a natureza. O peão vê-se privado do ar mais puro que a mesma traz e, além disso, tem de contornar novos obstáculos, os próprios carros, muitas vezes estacionados individamente. O ar da cidade, já de si pouco recomendável para a saúde, a ser prejudicado pelo extermínio deste recanto que oxigena! Tubos de escape a passar perto, a substituir o perfume de flores, de rosas e outras tantas... estou a me sentir de luto.