Ainda na sexta-feira passada, sentada no autocarro, o meu olhar encontra uma flor de plástico no cabelo de alguém. Pensei cá para mim: «olha, até que fica bonito».
Como pessoa que nunca seguiu modas e não dá importância ao aspecto, também nunca me fez espécie aquilo que os outros pensam do que uso ou aquilo que os outros pensam do que os outros usam. Não é comum ver uma jovem que já não é menina com uma flor de plástico no cabelo. Que a usasse porque sentia vontade, era para mim algo com que posso me identificar.
Já não simpatizei tanto com o que vi. Não se pode julgar pelas aparências e decerto que, se a conhecesse, não a julgaria de antemão. Mas já não achei a flor tão bonita no cabelo de uma pessoa tão envaidecida. É quase um desperdício. O aparente excesso de vaidade não é uma característica que considero atraente. Penso que denuncia uma pessoa que "vai abaixo" com facilidade. Uma pessoa com tendência a importar-se em demasia com as coisas mais fúteis da vida. Uma pessoa fraca. Já todos conhecemos a história de Narciso que, para contemplar o seu reflexo nas águas do lago, acabou por cair e afogar-se. Esta rapariga mirava-se ao espelho com idêntica contemplação.
Mas o aspecto que não passou despercebido a ninguém, foi a rendição de toda aquela plateia à sua voz, quando apenas uns intantes antes, estavam a ridicularizá-la através de múltiplas expressões de reprovação à sua aparência e aspirações. Mulher de 47 anos vinda de um lugar pequeno, sem vaidade, nunca casou ou teve namorado porque cresceu com alguns estigmas e ficou a cuidar da mãe. Cabelos na cor natural, sobrancelhas originais, vestido bonito para o momento de festa, um rosto que leva a suspeitar um antecessor problema fisiológico qualquer, e uma genuína simplicidade e alegria que a maioria já perdeu - estavam todos a avaliar pelo exterior e a reprovar. Quando se preparavam para o pior, Susan abre a boca e a voz que sai da sua garganta é tão poderosa, que leva uma imensa plateia e os elementos do júri ao extâse. Que lindo!
Se a mãe de quem Susan cuidou até à morte a incentivava a entrar no programa, decerto que teve um dedinho dela ali naquele momento. Deve ter pensado: "Minha filha, este momento é todo teu! O mundo vai perceber a pessoa maravilhosa que tu és!"
O que aconteceu naquele palco foi mágico. Susan dominou todos com o encanto da sua voz. E também esteve muito bem na interpretação. Eu fui às lágrimas e tenho cá para mim que alguns elementos do júri tiveram de se segurar para não lhes acontecer o mesmo.
Magnífico! Não se devia mesmo julgar as pessoas pela aparência. É tão limitador e estúpido! É que podem-nos passar ao lado pessoas lindas. E nós, que buscamos intensamente outras pessoas que nos completem, com a sua amizade e afecto verdadeiro, deixamos tudo escapar por só estarmos a procurar pela "casca" e não pelo "recheio".
Veja o vídeo inteiro e espreite também os mais interessantes sites sobre o assunto:
http://www.interney.net/blogs/inagaki/2009/04/14/susan_boyle_paul_potts_musica_faz_chorar/ - (com referência a Paul Potts)
http://5dias.net/2009/04/18/susan-boyle/ (análise do fenómeno e opinião do elenco de Los Miserábles em Londres)http://en.wikipedia.org/wiki/Susan_Boyle (A vida de Susan na Wikipédia)